Uma das características que admiro em um músico ou compositor é a irreverência; geralmente ela caminha junto à criatividade e à originalidade. Um dos artistas que mais se destacam nesses quesitos é Tom Zé ( http://@tomzeoficial)
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O baiano Antônio José Santana Martins, mais conhecido como Tom Zé, que esse ano completa 90 anos, começou a se interessar por música ouvindo Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e os grandes cantores do rádio. Quando iniciou a tocar violão, sua vida mudou, a música se tornou seu foco principal e, ainda muito jovem, compôs uma canção para o filme “Jana e Joel”.
Com a ajuda de uma tia, ele mudou-se para Salvador para se profissionalizar como músico. Em 1962, passou em primeiro lugar no vestibular da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia e lá ajudou a fundar o Grupo de Compositores da Bahia, voltado para a música erudita.
Em 1964, participou do show “Nós, por exemplo, e Nova bossa-velha & velha bossa-nova” junto Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa; esse encontro foi a semente do tropicalismo. O sucesso desse show foi tão grande que eles foram convidados para fazer outro espetáculo em São Paulo, no Teatro Arena, com o título de Arena Canta Bahia. Os baianos alcançaram êxito, mas mesmo assim Tom Zé decidiu voltar para Salvador e terminar o curso. Nesse retorno, além de estudar, trabalhou como jornalista. Ao se formar, foi professor de harmonia e contraponto na própria escola de música e foi também violoncelista da Orquestra Sinfônica e da Orquestra de estudantes da universidade.
Ao voltar para São Paulo em 1968, o empresário dos baianos, Guilherme Araújo, pediu que adotasse o nome artístico de Tom Zé. Esse ano foi muito importante na vida do artista, que venceu com a canção “São Paulo, meu amor” o 4º Festival de Música Popular Brasileira e ainda ganhou o prêmio de melhor letra com a canção 2001, uma parceria com Rita Lee, interpretada pelos Mutantes. Nesse mesmo ano, Tom participou de um disco antológico, o “Tropicália-Panis et Circenses”. A sua colaboração foi com a música “Parque Industrial”, que criticava os meios de comunicação e, para fechar o ano com chave de ouro, lançou seu primeiro disco autointitulado. Algumas músicas tratam da reflexão sobre a rápida transformação dos costumes da vida no Brasil e da vida na cidade grande.
Tom Zé encontrou no tropicalismo um “local” onde podia mostrar suas composições, que rompiam padrões, juntando o rico folclore baiano com uma forma elaborada e à frente do seu tempo de compor. Ele disse na época que faz antimúsica e não queria fazer o que já foi feito; até hoje ele pensa assim.
Essa forma de compor dificulta a classificação da sua obra e é difícil encaixar algum rótulo ao seu trabalho. O seu quarto disco, “Todos os Olhos”, confirma a busca pelo rompimento de padrões e a dificuldade de classificar seu som. Por conta disso, as emissoras de rádio acabaram deixando de tocar suas músicas; consequentemente, o público esqueceu do artista. Nos anos seguintes, ele seguiu fazendo shows em universidades, trabalhou como ator e lançou dois discos.


Mesmo com a popularidade em baixa, Tom Zé não pensou em mudar sua forma de compor e, em um show marcante na sua carreira no Teatro da Fundação Getúlio Vargas, levou ao palco instrumentos que ele mesmo inventou. Foram eles: o “enceroscópio”, o “buzinório” e o “hértze”. Esse último foi considerado um protótipo do que seria o “sampler”; o cara além de tudo é um visionário.
Nos anos 80, ele chegou a vender uma casa para custear a criação de instrumentos experimentais, buscando uma evolução musical.
Quando pensava em abandonar a música nos anos 90, por conta de dificuldade financeira, foi contratado pelo cantor David Byrne, que criou o selo “Luaka Bop”.
O New York Times listou o CD “The Best of Tom Zé como um dos melhores do ano, e a revista Rolling Stones considerou-o como um dos grandes álbuns da década.
Em 2000, após quase 20 anos, uma gravadora brasileira lançou um disco de Tom Zé, foi a Trama. Nesse trabalho, finalmente ele conseguiu usar os seus instrumentos experimentais, dando vazão à sua ousadia, desafiando assim a criatividade contemporânea. Ele usou enceradeiras, cantos de lavadeiras e melodias medievais, fundidas às expressões brasileiras.
Tom Zé seguiu lançando discos que buscam sempre inovar, usando toda a sua criatividade em temas variados, como levantes e rebeliões dos povos indígenas e negros e imprensa, entre outros.
Para tocar na banda de Tom Zé, além de ser um bom músico, o cara tem que aprender uma grande quantidade de músicas, porque em shows Tom não segue um set list pré-estabelecido, muda a ordem e inclui músicas que não estavam na lista, de acordo com a sua percepção durante a apresentação. Então, além de não serem músicas fáceis de tocar, ainda tem essa questão da quantidade de canções que os músicos têm que aprender.
Inquieto, criativo, irreverente e ousado são alguns adjetivos que podemos usar para tentar definir esse grande artista. Viva Tom Zé.
Vou deixar aqui o link de uma de suas obras: https://www.youtube.com/watch?v=j6iCJdxSN9I&list=RDj6iCJdxSN9I&start_radio=1
